sexta-feira, 18 de maio de 2007

Um Apólogo - Machado de Assis

"Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que está você com essear, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
- Deixe-me, senhora.
- Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
- Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
- Mas você é orgulhosa.
- Decerto que sou.
- Mas por quê?
- É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
- Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
- Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
- Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vai atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
- Também os batedores vão adiante do imperador.
- Você é imperador?
- Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana - para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
- Então senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureita só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic da agulha nopano. Caindo o Sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolcheando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
- Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor de experiência, murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei essa história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária.!"

Quando li esse texto, gostei muito.
não sei se me sinto como uma agulha, ou como a linha.
Só sei que meu papel muitas vezes fica assim, confuso.
Quando devo dar valor ao que fazem por mim, não dou.
Quando faço, me esqueço de ter que ser recompensada. Acho que todo mundo tem um pouco de agulha, e de linha.
uns mais, outros menos.
uns mais de agulha, outros mais de linha. mas todos são assim.

Não sei se faz algum sentido.

Apólogo: Gênero que expressa uma verdade moral em forma de fábula.

Um comentário:

ewenabdal disse...

Boas idéias geram...boas idéias
esse texto é mto bom e faz agente pensar no verdadeiro papel que desempenhamos nesse mundo...
será que sou realmente útil??
ou eu apenas me apoio nas ações das outras pessoas??
éééé...muita coisa pra pensar...
Mah, vc tá sempre arranjando boas coisas pra ver, ler e escutar...acho que é por isso q vc tem essa cabeça tão boa, tão madura e cheia de boas idéias.
tambem não é assim vai...ainda sobra espaço pra grotesquisses...xD
mas enfim...nunca perca essa sua fome por novas idéias...ou velhas idéias, mas que sempre acrecentam algo de bom à nossa personalidade.
abre parêntesis...
MACHADO DE ASSAS È PHODA!!!!
fecha parêntesis.
''Inteligência é afrodisíaco''
Tá comprovado mesmo...